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XXI Encontro.Nordestino de Biodança e Encontro.Internacional de Educação Biocêntrica
de 02 a 07 de Setembro de 2010
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Definición de Biodanza

A Biodanza é um sistema criado nos anos 60, no Chile, pelo antropólogo e sociólogo Rolando Toro Arañeda. Considerando a dança como movimento carregado de emoção, Rolando percebe sua capacidade de produzir alterações fisiológicas que deflagram potenciais adormecidos. Todos nós temos uma infinidade de potenciais em estado latente, os quais não se manifestam pela ausência de estímulos ambientais positivos ou, em muitos casos, pela presença de estímulos negativos repressores. Rolando descobre que a dança, devido a seus conteúdos emocionais e arquetípicos, pode levar o dançarino a contatar seus potenciais não manifestos.



 

A Biodanza é um sistema criado nos anos 60, no Chile, pelo antropólogo e sociólogo Rolando Toro Arañeda. Considerando a dança como movimento carregado de emoção, Rolando percebe sua capacidade de produzir alterações fisiológicas que deflagram potenciais adormecidos. Todos nós temos uma infinidade de potenciais em estado latente, os quais não se manifestam pela ausência de estímulos ambientais positivos ou, em muitos casos, pela presença de estímulos negativos repressores. Rolando descobre que a dança, devido a seus conteúdos emocionais e arquetípicos, pode levar o dançarino a contatar seus potenciais não manifestos.


A Biodanza é um sistema de integração afetivo-motora baseado em vivências induzidas pela dança, música e situações de grupo. Visto que a emoção de viver o aqui-agora é pouco traduzível em palavras, torna-se difícil explicar o que é Biodanza para quem nunca a vivenciou. Ela não pode ser restringida a uma metodologia, ou mesmo um método; apesar de utilizar uma metodologia que expressa um sistema de pensamento. Neste sentido, se operacionaliza através de um modelo teórico complexo e sistêmico que propõe uma interação sincrônica entre processos metabólicos, fisiológicos, físicos e emocionais. Ao considerar todos os processos como um único processo, vê o ser vivo como único e vital em sua interação com o meio.


OS SETE PODERES DA BIODANZA
  por Myrthes Gonzalez


MÚSICA
A música é uma espécie de linguagem universal que fala direto à emoção. Apesar de ser concebida dentro de um contexto cultural, ou seja, de explicitar a cultura de um povo; ela transcende este aspecto ao falar das emoções e sentimentos de uma forma compreensível a qualquer pessoa, independentemente da sua origem. A música transcende a cultura, apesar de ser produto desta, porque fala à emoção que vem antes da cultura. Os efeitos da música não se restringem às zonas mais recentemente desenvolvidas do cérebro; ela tem uma ação direta no sistema límbico-hipotalâmico. Quando dançamos liberamos neurotransmissores e hormônios cujo ciclo fisiológico tem atuação maior que o tempo da dança.

A música tem efeito direto sobre o estado de ânimo, podendo induzir emoções de tristeza, alegria, amor, raiva etc. Cada música tem uma semântica musical que pode trazer uma significação arquetípica de base. Por exemplo, uma música pode ser identificada com um elemento da natureza - água, terra, fogo e ar. A leveza da valsa traz a presença do ar; a paixão do tango, o fogo; a bossa-nova, a água; as batucadas, a terra.

Em Biodanza a música tem uma presença central; é ela que conduz à vivência, que motiva o movimento. O convite é se fundir com a música, se entregar totalmente às suas ondas e pulsações. O facilitador é quem escolhe a música a ser utilizada, de acordo com o tipo de vivência que deseja propor. Além da música, há o movimento e o significado da dança, transmitido de forma verbal e poética pelo facilitador.

A soma dos três elementos - música, movimento e fala do facilitador (consigna) - cria o ambiente básico para gerar a vivência. Outros fatores importantes são o grupo e o ambiente onde esta ocorre.

A música utilizada em Biodanza não segue uma especificidade de gênero; podem ser utilizadas músicas que vão do clássico ao popular, em todas as suas variações. O que interessa é a emoção que a música deflagra e o grau de integração que pode gerar. Existe uma seleção de músicas adequadas; a Biodanza não é uma dança livre em que se pode utilizar qualquer música com qualquer proposta. É importante salientar que a simples dança livre tende a reforçar dissociações e que músicas dissociativas geram movimentos e formas não integradas de estar no mundo. A música em Biodanza deve propiciar o reforço da integração corporal e estimular o vínculo afetivo. Em sua conotação erótica, a música deve conter elementos de integração afetivo-sensual e levar à vivência do prazer de dançar e do desejo de viver. Ainda existe a possibilidade de o grupo produzir a própria música com instrumentos de percussão simples ou somente com a voz. Também é possível utilizar música ao vivo ou simplesmente os sons da natureza em ambientes em que esta se encontra preservada e íntegra.

 

INTEGRAÇÃO AFETIVO-MOTORA

A Biodanza tem como um de seus pontos centrais a integração afetivo-motora, movimento que parte de uma motivação afetiva e a expressa. Nossa cultura tem se caracterizado por uma repressão ideológica da manifestação, através do movimento, das nossas emoções e sentimentos; somos “treinados” a controlar até nossas expressões faciais na intenção de não revelar o que sentimos. Hoje o movimento é associado à produtividade; um bom exemplo disso é o taylorismo - sistematização do movimento humano em relação ao meio de forma a gerar o máximo de produção com o mínimo gasto de energia.

Experimentamos uma forte dissociação entre mente e corpo; considerado o corpo algo menor que a mente, um lugar de passagem onde moramos nesta vida. Esta visão corrobora para uma mecanização do corpo e dos movimentos; o corpo passa a ser uma máquina de produzir. Em nossa cultura desintegrada o corpo é visto como algo externo, que nos pertence; nesse sentido, é tratado para ser belo, produtivo e saudável. Estamos muito longe da conscientização de revelações que um organismo integrado faz a si mesmo. Como conseqüência, sofremos freqüentemente com estresse, sobrepeso, bulimia, pânico, depressão, doenças psicossomáticas, solidão, carência sexual.

A maioria de nós tem dificuldade de saber quais são suas reais necessidades. Estamos imersos em um turbilhão de informações sobre novos produtos a serem consumidos; o que cria necessidades, antes não existentes, que mascaram nossas reais necessidades. Vivemos em um ciclo compulsivo de trabalho alienante, buscando dinheiro para comprar coisas que na realidade não são importantes. No início do século XX, Freud falou a respeito do mal-estar da civilização, referindo-se à proliferação de sintomas de histeria, conseqüência da repressão sexual. Hoje podemos dizer que “evoluímos” para formas de repressão mais sofisticadas. Não se reprime a conduta sexual; mas o desejo que, utilizado pela mídia, é manipulado de forma tão profunda que jamais chegamos exatamente, a saber, o que é importante em nossa existência.

Continuamos vivendo em uma cultura de forte repressão sexual; mas seus reais sintomas foram se ocultando atrás das marcas da depressão, conseqüência do non-sense em que nos encontramos. A falta de reconhecimento do valor da vida acaba gerando vazio e falta de perspectivas; nada parece ter valor. Assim surgem verdadeiras epidemias relacionadas ao que chamamos de desequilíbrio mental; mas que só fazem nos mostrar um profundo vazio existencial: depressão, compulsões, pânico.

Ao propor a integração afetivo-motora, a Biodanza resgata o sentido do que necessitamos. Nossas necessidades aparecem na expressão dos nossos desejos, formas simbólicas de manifestação destas. Por exemplo: necessito amor; portanto, em relação a essa necessidade, desejo fazer amigos ou ter um amor. É justamente nesse ponto que a mídia entra em ação, incutindo modelos e desviando a necessidade de seu curso natural. Se tivermos necessidade de amor, podemos comprar infinitas marcas de produtos de beleza ou mesmo uma máquina de lavar que um ator simpático, que viveu um personagem encantador na última novela, apresenta no comercial de TV. Posso pensar que somente poderei viver a história de amor que vi na novela quando tiver os cabelos tão bonitos quanto os da atriz que fazia a personagem que contracenava com o ator da lavadora. Assim, enquanto aquele romance não vem, compro a lavadora e refaço o estoque de xampu; e, é claro, trabalho muito para adquirir estes objetos que se tornam imprescindíveis. E o amor? Bom o amor... será que realmente preciso de um amor como aquele da novela?

Em Biodanza procuramos contatar com a estrutura original do desejo, o mais próximo possível da necessidade, e agir de acordo com este; buscando o que mais profundamente nos move.

Mas isso seria o fim da neurose?!

O fato de vivermos em uma civilização com fortes determinantes culturais sempre nos criará certo grau de neurose, o que nos força a adaptar e controlar nossas ações. Mas quanto maior for nossa integração afetivo-motora, mais afastados das neuroses estaremos.

A Biodanza busca resgatar o contato com nossos instintos básicos, que corresponderiam a nossas necessidades. É preciso lembrar que, ao contrário de muitas fantasias, o instinto é auto-regulável, ou seja, tem por fundamento a preservação do indivíduo e da espécie. É um comportamento em feedback com o meio; portanto, não é destrutivo. A etologia humana tem demonstrado o quanto nossos comportamentos são herdados.

A Biodanza propõe o resgate da nossa capacidade de feedback com o meio. A integração afetivo-motora é o movimento que parte de uma motivação afetiva em ressonância com o meio, que regenera o vínculo com a vida. Leva a uma constante dança que não é apenas um movimento em um momento preciso; é vida, pois o que vive dança em continuidade.

 

VIVÊNCIA
É possível que a percepção da realidade tenha mudado com a invenção do relógio? Este instrumento, tão popular em nossos dias, entrou para a história, como mecanismo, há cerca de quinhentos anos. Simboliza uma etapa da história da humanidade, o mecanicismo, quando a ciência concentra-se na mensuração.

Imaginemos o espaço como uma coordenada vertical e o tempo como uma coordenada horizontal. Quando estabelecemos um ponto de encontro, uma reunião com amigos, por exemplo, sempre haverá essas duas coordenadas: tempo e espaço. Seria altamente improvável que esses amigos conseguissem se encontrar sem essas coordenadas. Neste sentido, mensurar mecanicamente o tempo, padronizá-lo e popularizá-lo foi um grande progresso. Assim, pouco a pouco, toda a estrutura social começa a se organizar de acordo com os ponteiros do relógio. Porém, essa organização foi se tornado tão rígida que, ao invés do relógio permanecer, como originalmente, a serviço da humanidade; as pessoas é que acabam ficando a serviço dele. Passamos a viver em uma espécie de prisão virtual em que nosso organismo deve se adaptar aos tempos cronometrados, mesmo que estes representem uma violência para ele. Bebês rigorosamente alimentados de três em três horas; crianças sentadas em fileiras durante ininterruptas horas; adultos enfrentando diariamente o trabalho repetitivo de uma linha de montagem. O relógio marca o início de um afastamento dos tempos orgânicos, regulados pela natureza e seus ciclos. Acostumados a viver em uma sociedade impositiva, somos incapazes de mudar a realidade. A tecnologia, que originalmente se desenvolve com a promessa de libertar homens e mulheres de infinitas horas de esforço, proporcionando-lhes tempo para desfrutar da vida e das artes; na realidade, acaba por servir a um sistema alienante gerador de neurose e impotência.

Pensando na evolução da vida, verificamos que os mamíferos tem um sistema nervoso muito complexo; somos capazes de desenvolver aptidões sociais como linguagem, comunicação, memória, organização grupal. Estas funções concentram-se em uma área do cérebro chamada de neocórtex; responsável também por compor operações complexas, individuais e grupais, que se traduzem por ações concretas no meio. Já as funções de auto-regulação orgânica - percepção de sensações de fome e sede, frio ou calor, perigo ou prazer - pertencem a uma área mais antiga do cérebro chamada de sistema límbico-hipotalâmico, a sede das emoções. O córtex e o sistema límbico funcionam de forma integrada; a percepção de uma necessidade conduz a uma ação estratégica que busca no meio a sua satisfação.

O córtex, além de facilitar a operacionalização de soluções inteligentes, tem uma função frenadora igualmente importante. Esta função refere-se principalmente a condutas sociais que levam o individuo a avaliar qual a melhor forma e momento para se colocar frente aos demais membros de sua comunidade. Determinadas circunstâncias podem não ser adequadas para buscar sexo, alimento, espaço; sendo mais inteligente esperar. Avaliada estrategicamente, esta modulação gera a capacidade de postergar, de esperar o momento adequado de agir; contudo, não se deve adiar a ação ao infinito, o que pode causar uma série de complicações orgânicas.

No caso do ser humano, essa função natural sofreu profundas implicações com o processo de civilização. Desse modo, a função frenadora do córtex acabou servindo para ajustar o indivíduo a uma realidade externa impositiva que, na maioria das vezes, exercia um poder coercivo sobre ele; baseado na punição e sua conseqüente emoção, o medo. As naturais relações hierárquicas dentro dos grupos vão se transformando em relações de poder e imposição; perpassadas por propriedade privada, guerra e trabalho escravo. A civilização, ao exacerbar a função frenadora do córtex, acaba gerando uma série de doenças relacionadas à postergação e repressão das necessidades básicas. O desrespeito aos ciclos fisiológicos traz alterações orgânicas, perceptuais e emocionais como conseqüência.

Muitas vezes, ao invés de se criar uma estratégia direta para conseguir comida e saciar a fome, busca-se postergar a satisfação desta. Neste caso, a repetida falta de ação concreta pode produzir, em médio prazo, sintomas orgânicos como gastrite e dores de cabeça; e emocionais como angústia, medo, sensação de impotência e baixa auto-estima. Postergar e reprimir são conseqüências de uma vida determinada neuroticamente pelos ponteiros do relógio.

A vivência em Biodanza é proposta no sentido de se retornar à função estratégica e criativa do córtex, buscando sua integração ao sistema límbico-hipotalâmico. O momento da vivência é de ruptura com o tempo cronológico, quando a realidade passa a ser percebida em sua dimensão atemporal. Durante a vivência há uma alteração da percepção. No tempo cronológico, um abraço dura um minuto; no tempo vivencial é eterno, sem tempo, capaz de adquirir um significado especial na existência de quem o vive. Na atemporalidade da vivência, nenhuma emoção permanece; todas são vividas intensamente no aqui-agora. O retorno ao tempo cronológico, após a vivência, pode ser o momento de integrar a experiência vivida ao cotidiano; de buscar a concretização do que realmente tem valor, reconhecendo as reais necessidades e resgatando a potência frente à vida. A vivência pode ser entendida como base para processos educacionais voltados à vida, ao invés de direcionados à produção e consumo. Neste âmbito, a cognição se desenvolve em uma relação de prazer e amorosidade com o mundo.

 

TRANSE
Sob a base perceptual da vivência está o transe, que pode ser definido como um estado e uma passagem. Nossa cultura teme os estados de transe; associando-os ao misticismo, à perda de controle e à loucura. Existe a crença de que pessoas comuns e adaptadas ao sistema não devem acessar a experiência de transe. Na realidade, o fato é que o transe é uma necessidade que têm bases fisiológicas. Todos os dias, ao dormirmos, entramos em estado de transe, que é a passagem de um estado perceptual a outro. Esta alternância está ligada aos ciclos naturais, a nossa natureza rítmica e cíclica. Assim, o transe é um processo natural de contato com nossos ritmos orgânicos.

A Biodanza entende o transe como a passagem de um estado de consciência de si, enquanto singularidade; para outro estado de consciência de si na fusão da totalidade, enquanto parte de um todo maior (família, grupo, ecossistema, planeta). Aprofundar os estados de transe significa agir diretamente sobre o equilíbrio homeostático, gerando momentos de estabilidade e instabilidade que levam ao desenvolvimento e a auto-regulação orgânica. Os estados de transe também promovem renovação celular e estimulam a ação no mundo.

Em realidade, o ser humano necessita e procura por estados de transe; quando a manifestação destes é reprimida no ambiente cultural, mecanismos sociais criam válvulas de escape adequadas à manutenção de certa ordem. Atualmente o transe vem sendo praticado em várias religiões; induzido por substâncias alucinógenas; vivenciado em eventos coletivos socialmente aceitos - partidas de futebol, shows musicais e festas como o carnaval.

O problema da restrição cultural a certos tipos de manifestação de transe é a possibilidade de se reforçar ou gerar dissociações individuais ou coletivas. Um transe religioso de possessão pode causar, após a cerimônia, mal-estar físico e depressão na pessoa que foi o “cavalo” da entidade. A utilização de alucinógenos e demais substâncias que alterem o estado de consciência pode causar dependência e “detonar” núcleos psicóticos ou neuroticamente compulsivos. Pessoas extremamente contidas e adaptadas às normas sociais podem manifestar toda sua agressividade durante eventos de grande amplitude. O transe em si, independentemente da circunstância em que se manifesta, é natural e necessário a todo ser humano. Porém, dependendo de como é conduzido, pode se tornar extremamente dissociativo ao refletir o ambiente em que está sendo induzido.

A proposta do transe em Biodanza é a integração em vários níveis. Nesse sentido, o estado de transe não “detona” núcleos psicóticos ou neuróticos; pelo contrário, gera bem-estar, possibilita a dissolução gradual de couraças musculares (tensões crônicas) e aumenta a autopercepção ao reforçar a noção da própria identidade. Caracteriza-se por ser conduzido cuidadosamente, de forma progressiva e nunca imposto, em ambiente afetivamente acolhedor que facilita a reconexão com os ritmos fisiológicos e necessidades essenciais. Um transe integrador gera uma maior consciência corporal e ajuda a construir uma auto-imagem positiva, o que reforça a auto-estima.

O estado de transe abre a possibilidade da percepção da própria pessoa enquanto ser erótico, afetivo e transcendente. Oferece a oportunidade de regredir a estados de menor vigilância em relação à repressão que temos introjetada; quando é possível se propor vivências docemente erótico-afetivas que oportunizem a descoberta do nosso potencial de amor e prazer. Aspectos como esses são pouco valorizados em nossa cultura porque não estão diretamente ligados à produção e ao cumprimento de metas e objetivos. Entretanto, acreditamos que ao buscarmos nossa realização no estabelecimento de relações afetivas com os demais e na satisfação com o que fazemos; estaremos mais saudáveis e concretizaremos nossos objetivos e metas com outra qualidade, a do ser.

 

CARÍCIA
Embora a carícia seja uma das formas de comunicação mais bloqueadas em nossa cultura; nos últimos anos o toque vem sendo revalorizado por muitas terapias e técnicas terapêuticas que nos falam dos efeitos benéficos do ato de tocar e da importância do tocar e ser tocado.

Em Biodanza há uma profunda diferença entre carícia e toque. Nem todo toque é carícia; esta se diferencia por ser um toque direcionado e intencional, um toque com comprometimento afetivo-sensual que favorece a empatia. A carícia acontece quando toda a atenção está voltada para a pessoa acariciada e existe uma mobilização do centro afetivo de quem dá e recebe. Junto ao componente afetivo há uma eroticidade que pode ser mais, ou menos, pronunciada; podemos encontrar carícias fortemente sensuais com um componente afetivo em segundo plano, ou vice-versa. Em toda carícia afetiva haverá nuances eróticas que dizem respeito ao simples prazer e satisfação que o ato em si provoca.

A carícia é uma ação extremamente integrada; envolve integração afetivo-motora e afetivo-erótica, além da capacidade de entrar em relação de feedback com o outro. Por implicar capacidade de entrar em interação e percepção do outro e de si mesmo, não existe carícia imposta.

As mãos são a parte do nosso corpo que comumente se envolve diretamente no ato de acariciar. De fato, a mão tem um formato anatômico adaptado que se molda à forma da pessoa acariciada; possibilitando a expressão de vários sentimentos e emoções através da variação da pressão, velocidade e intensidade do toque. Na Biodanza, buscamos resgatar a expressividade das mãos no ato de acariciar. Com o tempo descobrimos que as mãos têm muitas formas de comunicar e que um simples toque pode substituir muitas palavras.

Mas o mundo das carícias não envolve somente as mãos; onde houver pele, há infinitas possibilidades de se expressar carícias. Ainda há as formas de carícia que não envolvem o contato direto com a pele, estas também são de grande intensidade. A carícia de um olhar pode ser, ao mesmo tempo, muito sutil e forte. Em Biodanza se aprende que é possível olhar sem julgar, “olhar com o coração”; procurando perceber a essência de cada pessoa. O olhar diz muitas coisas; nossas emoções transparecem através do olhar, mesmo que tentemos negá-las pela expressão do rosto. Quando olhamos “olhos nos olhos” encontramos uma história de vida, força e fragilidade pulsando juntas. No olhar não existem máscaras; talvez seja por isso que nossa cultura evite o contato do olhar.

Outra forma de carícia é a palavra, o diálogo simples e qualificante. Costumamos usar muitas palavras para expressar conceitos intelectuais, falar de coisas superficiais; porém, quando o assunto é sentimento, grande parte das pessoas encontra dificuldade. A carícia verbal é a expressão simples, clara, poética e encantadora do que se sente.

Rolando Toro propõe um novo tipo de relação baseada no que chama de estética antropológica, entendida como a capacidade de ver e comunicar o que há de belo no outro. Muitas vezes atitudes violentas, descuidadas e superficiais são vistas como naturais e cômodas; palavras adquirem a densidade emocional da desqualificação. A estética antropológica está diretamente relacionada à carícia no sentido de promover a qualificação, o cuidado e a amorosidade na relação com o outro.

Uma pessoa que recebe carícias regularmente é mais saudável. Do ponto de vista fisiológico sabemos que a carícia é essencial para o desenvolvimento da bainha de mielina nos bebês e sua posterior preservação no transcorrer da vida. As carícias também promovem a formação de redes sinápticas, que não existiriam sem este estímulo.

AMPLIAÇÃO DA PERCEPÇÃO E DA CONSCIÊNCIA

O que forma a consciência é nossa capacidade de perceber o mundo e nós mesmos. Entretanto, nossa percepção se restringe a uma pequena parte da realidade. Não obstante nossos sentidos só serem capazes de perceber uma parcela dos estímulos do meio, formamos barreiras que nos impossibilitam conscientizar tudo que percebemos. O que chamamos consciência é o âmbito da percepção que nos permite ter uma pequena noção da nossa existência; tateamos em noções sobre como somos e qual nosso lugar no mundo. A organização da consciência é simbólica e conceitual.

Hoje vivemos em um mundo que valoriza e possibilita amplo acesso às informações; porém, ser bem informado não significa ser consciente. A consciência se forma em um processo de interação com o mundo, ao protagonizarmos nossa própria história. Uma das características da consciência é sua capacidade de expansão; durante a existência podemos ampliar gradualmente nossa percepção e atingir graus cada vez mais sutis e elaborados. A Biodanza propõe um processo de desenvolvimento da consciência a partir da interação com a realidade, possibilitando o envolvimento e conhecimento do mundo que nos rodeia. O excesso de informações a que somos submetidos diariamente pelos meios de comunicação de massa; ao invés de nos aproximar da realidade, nos distancia dela ao gerar um sentimento de impotência diante dos fatos cotidianos.

O conhecimento implica a ação sobre o fato, o viver algo; portanto, é um estado mais avançado que a informação, fato em si. A sabedoria vem do acúmulo de conhecimento, que pode ser enriquecido por informações. O saber é um segundo passo, vai além do conhecer. A sabedoria vem da maturidade alcançada não somente com a idade, mas com a intensidade e profundidade da vivência. Todos nós somos capazes de ser sábios, mas para isso é necessário ir além do embotamento característico da nossa cultura. Para tanto, primeiro devemos nos encantar com a vida, brincar e perder o controle da situação. O saber é fruto da afetiva e apaixonada interação com a realidade.

A Biodanza nos proporciona uma nova sensibilidade frente à vida. Sabedoria não é poder, imagem ou ego; é ser, sentir e docemente perceber. A doçura da percepção, a sensibilidade frente à manifestação da vida e a singularidade de cada momento único são valores cultivados vivencialmente na Biodanza.

 

O GRUPO

O grupo é a matriz do desenvolvimento humano. A socialização compõe um fator fundamental na formação da nossa maleável relação com o mundo, determinando grande parte de nossos comportamentos futuros. O ser humano, ao nascer, se encontra muito imaturo e indefeso, incapaz de gestos mínimos como se alimentar ou se deslocar sozinho. Tal condição, comum nos mamíferos, se prolonga na espécie humana, por isso necessitamos ser cuidados por um tempo maior. Esta aparente vulnerabilidade acabou sendo um fator fundamental para nossa sobrevivência como espécie que se distingue por sua herdada capacidade de aprender. O tempo estendido tornou-se essencial para a formação de laços afetivos, base sobre a qual construímos nosso complexo processo de aprendizado. Desta forma, podemos dizer que a qualidade da convivência com pais, avôs, familiares, amigos e comunidade é um fator determinante para o ser humano na medida em que o compartilhar com os demais constrói nossa humanidade. Atualmente a função de proteção, tão marcada em pequenas comunidades e grupos primitivos, está desaparecendo com o crescimento das cidades, que mantém seus habitantes no anonimato. Em comunidades pequenas é comum todas as pessoas se conhecerem pelo nome; já nas grandes cidades, muitas vezes, se não na maioria, os próprios vizinhos de porta são incapazes de se comunicar. As famílias tendem a reduzir de tamanho e muitas pessoas aprendem a viver sozinhas. Surge o fenômeno da solidão em massa; apesar de estarmos cercados fisicamente por muitas pessoas, estamos emocionalmente sozinhos. Como conseqüência, nossa capacidade de interação se restringe ao que é necessário ou utilitário e nossas relações se tornam cada vez mais superficiais, permeadas principalmente pelo medo e pela desconfiança. Desta forma, aos poucos perdemos a consciência de nós mesmos.

O grupo é um elemento fundamental na estruturação da identidade, o reconhecimento dos demais é a base para o próprio reconhecimento. A qualidade da convivência em grupo influencia a saúde mental e somática de cada indivíduo. Em Biodanza, o grupo é matriz de renascimento. Nossa proposta é formar grupos que se reúnam periodicamente com a intenção de crescer e desfrutar a vida juntos, reforçando os laços afetivos através da valorização da presença de cada participante. Em uma cultura de solidão, como a que vivemos atualmente; a simplicidade desta proposta têm efeitos profiláticos e curativos muito potentes. A renovação provocada pela convivência afetiva dentro de um grupo pode ser comparada a um renascimento.

 

CONCLUSÃO
O sistema Biodanza está construído sobre uma base teórica em que aspectos aparentemente estanques interagem de forma coerente, formando um único sistema de alta eficácia operacional. Os sete aspectos aqui tratados estão em simultânea interação durante cada aula de Biodanza; juntos eles formam o poder de transmutação da própria Biodanza.

Considero a Biodanza um sistema de altíssima importância dentro da busca por uma sociedade mais humana e igualitária; ajudando, de forma estruturada, as pessoas a saírem de seu isolamento e superarem suas dissociações. O mundo necessita de metodologias que tragam resultados eficazes para o resgate da saúde mental do ser humano, gerando uma sociedade voltada para o amor e cuidado pela vida. A Biodanza é um sistema capaz de gerar esses resultados.


BIBLIOGRAFIA

1.      Anotações feitas durante palestra do professor Rolando Toro no IX encontro da regional sul de biodanza no Chile em 2004.

2.      Livro de Rolando

3.      Livro de Sanclair

4.      Livro de Cezar – vivencia

5.      Apostilas da formação

6.      ROLINK, Suely & GUATTARI, Félix Micropolítica: cartografias do desejo Petrópolis: Vozes, 1986

7.      RAGO. L. M. & MOREIRA, E.F.P. O que é taylorismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

8.      Monografia Carmem

9.      Monografia Lílian

10. Monografia Ângela e Jorge

11. Chauí, Marilena – O que é ideologia – ed brasiliense

 

 

Fonte: www.pensamentobiocentrico.com.br

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