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A Biodanza é um
sistema criado nos anos 60, no Chile, pelo antropólogo e sociólogo Rolando Toro
Arañeda. Considerando a dança como movimento carregado de emoção, Rolando
percebe sua capacidade de produzir alterações fisiológicas que deflagram
potenciais adormecidos. Todos nós temos uma infinidade de potenciais em estado
latente, os quais não se manifestam pela ausência de estímulos ambientais
positivos ou, em muitos casos, pela presença de estímulos negativos
repressores. Rolando descobre que a dança, devido a seus conteúdos emocionais e
arquetípicos, pode levar o dançarino a contatar seus potenciais não manifestos.
A Biodanza é um
sistema criado nos anos 60, no Chile, pelo antropólogo e sociólogo Rolando Toro
Arañeda. Considerando a dança como movimento carregado de emoção, Rolando
percebe sua capacidade de produzir alterações fisiológicas que deflagram
potenciais adormecidos. Todos nós temos uma infinidade de potenciais em estado
latente, os quais não se manifestam pela ausência de estímulos ambientais
positivos ou, em muitos casos, pela presença de estímulos negativos
repressores. Rolando descobre que a dança, devido a seus conteúdos emocionais e
arquetípicos, pode levar o dançarino a contatar seus potenciais não manifestos.
A Biodanza é um
sistema de integração afetivo-motora baseado em vivências induzidas pela dança,
música e situações de grupo. Visto que a emoção de viver o aqui-agora é pouco
traduzível em palavras, torna-se difícil explicar o que é Biodanza para quem
nunca a vivenciou. Ela não pode ser restringida a uma metodologia, ou mesmo um
método; apesar de utilizar uma metodologia que expressa um sistema de
pensamento. Neste sentido, se operacionaliza através de um modelo teórico
complexo e sistêmico que propõe uma interação sincrônica entre processos
metabólicos, fisiológicos, físicos e emocionais. Ao considerar todos os
processos como um único processo, vê o ser vivo como único e vital em sua
interação com o meio.
OS SETE PODERES DA
BIODANZA
por
Myrthes Gonzalez
MÚSICA
A música é uma espécie de linguagem universal que fala direto à emoção. Apesar
de ser concebida dentro de um contexto cultural, ou seja, de explicitar a
cultura de um povo; ela transcende este aspecto ao falar das emoções e
sentimentos de uma forma compreensível a qualquer pessoa, independentemente da
sua origem. A música transcende a cultura, apesar de ser produto desta, porque
fala à emoção que vem antes da cultura. Os efeitos da música não se restringem
às zonas mais recentemente desenvolvidas do cérebro; ela tem uma ação direta no
sistema límbico-hipotalâmico. Quando dançamos liberamos neurotransmissores e
hormônios cujo ciclo fisiológico tem atuação maior que o tempo da dança.
A música tem
efeito direto sobre o estado de ânimo, podendo induzir emoções de tristeza,
alegria, amor, raiva etc. Cada música tem uma semântica musical que pode trazer
uma significação arquetípica de base. Por exemplo, uma música pode ser
identificada com um elemento da natureza - água, terra, fogo e ar. A leveza da
valsa traz a presença do ar; a paixão do tango, o fogo; a bossa-nova, a água;
as batucadas, a terra.
Em Biodanza a
música tem uma presença central; é ela que conduz à vivência, que motiva o
movimento. O convite é se fundir com a música, se entregar totalmente às suas
ondas e pulsações. O facilitador é quem escolhe a música a ser utilizada, de
acordo com o tipo de vivência que deseja propor. Além da música, há o movimento
e o significado da dança, transmitido de forma verbal e poética pelo
facilitador.
A soma dos três
elementos - música, movimento e fala do facilitador (consigna) - cria o
ambiente básico para gerar a vivência. Outros fatores importantes são o grupo e
o ambiente onde esta ocorre.
A música
utilizada em Biodanza não segue uma especificidade de gênero; podem ser
utilizadas músicas que vão do clássico ao popular, em todas as suas variações.
O que interessa é a emoção que a música deflagra e o grau de integração que
pode gerar. Existe uma seleção de músicas adequadas; a Biodanza não é uma dança
livre em que se pode utilizar qualquer música com qualquer proposta. É
importante salientar que a simples dança livre tende a reforçar dissociações e
que músicas dissociativas geram movimentos e formas não integradas de estar no
mundo. A música em Biodanza deve propiciar o reforço da integração corporal e
estimular o vínculo afetivo. Em sua conotação erótica, a música deve conter
elementos de integração afetivo-sensual e levar à vivência do prazer de dançar
e do desejo de viver. Ainda existe a possibilidade de o grupo produzir a
própria música com instrumentos de percussão simples ou somente com a voz.
Também é possível utilizar música ao vivo ou simplesmente os sons da natureza
em ambientes em que esta se encontra preservada e íntegra.
INTEGRAÇÃO AFETIVO-MOTORA
A Biodanza tem
como um de seus pontos centrais a integração afetivo-motora, movimento que
parte de uma motivação afetiva e a expressa. Nossa cultura tem se caracterizado
por uma repressão ideológica da manifestação, através do movimento, das nossas
emoções e sentimentos; somos “treinados” a controlar até nossas expressões
faciais na intenção de não revelar o que sentimos. Hoje o movimento é associado
à produtividade; um bom exemplo disso é o taylorismo - sistematização do
movimento humano em relação ao meio de forma a gerar o máximo de produção com o
mínimo gasto de energia.
Experimentamos
uma forte dissociação entre mente e corpo; considerado o corpo algo menor que a
mente, um lugar de passagem onde moramos nesta vida. Esta visão corrobora para
uma mecanização do corpo e dos movimentos; o corpo passa a ser uma máquina de
produzir. Em nossa cultura desintegrada o corpo é visto como algo externo, que
nos pertence; nesse sentido, é tratado para ser belo, produtivo e saudável.
Estamos muito longe da conscientização de revelações que um organismo integrado
faz a si mesmo. Como conseqüência, sofremos freqüentemente com estresse,
sobrepeso, bulimia, pânico, depressão, doenças psicossomáticas, solidão,
carência sexual.
A maioria de
nós tem dificuldade de saber quais são suas reais necessidades. Estamos imersos
em um turbilhão de informações sobre novos produtos a serem consumidos; o que
cria necessidades, antes não existentes, que mascaram nossas reais
necessidades. Vivemos em um ciclo compulsivo de trabalho alienante, buscando
dinheiro para comprar coisas que na realidade não são importantes. No início do
século XX, Freud falou a respeito do mal-estar da civilização, referindo-se à
proliferação de sintomas de histeria, conseqüência da repressão sexual. Hoje
podemos dizer que “evoluímos” para formas de repressão mais sofisticadas. Não
se reprime a conduta sexual; mas o desejo que, utilizado pela mídia, é
manipulado de forma tão profunda que jamais chegamos exatamente, a saber, o que
é importante em nossa existência.
Continuamos
vivendo em uma cultura de forte repressão sexual; mas seus reais sintomas foram
se ocultando atrás das marcas da depressão, conseqüência do non-sense em que
nos encontramos. A falta de reconhecimento do valor da vida acaba gerando vazio
e falta de perspectivas; nada parece ter valor. Assim surgem verdadeiras
epidemias relacionadas ao que chamamos de desequilíbrio mental; mas que só
fazem nos mostrar um profundo vazio existencial: depressão, compulsões, pânico.
Ao propor a
integração afetivo-motora, a Biodanza resgata o sentido do que necessitamos. Nossas
necessidades aparecem na expressão dos nossos desejos, formas simbólicas de
manifestação destas. Por exemplo: necessito amor; portanto, em relação a essa
necessidade, desejo fazer amigos ou ter um amor. É justamente nesse ponto que a
mídia entra em ação, incutindo modelos e desviando a necessidade de seu curso
natural. Se tivermos necessidade de amor, podemos comprar infinitas marcas de
produtos de beleza ou mesmo uma máquina de lavar que um ator simpático, que
viveu um personagem encantador na última novela, apresenta no comercial de TV.
Posso pensar que somente poderei viver a história de amor que vi na novela
quando tiver os cabelos tão bonitos quanto os da atriz que fazia a personagem
que contracenava com o ator da lavadora. Assim, enquanto aquele romance não
vem, compro a lavadora e refaço o estoque de xampu; e, é claro, trabalho muito
para adquirir estes objetos que se tornam imprescindíveis. E o amor? Bom o
amor... será que realmente preciso de um amor como aquele da novela?
Em Biodanza
procuramos contatar com a estrutura original do desejo, o mais próximo possível
da necessidade, e agir de acordo com este; buscando o que mais profundamente
nos move.
Mas isso seria o fim da neurose?!
O fato de
vivermos em uma civilização com fortes determinantes culturais sempre nos
criará certo grau de neurose, o que nos força a adaptar e controlar nossas
ações. Mas quanto maior for nossa integração afetivo-motora, mais afastados das
neuroses estaremos.
A Biodanza
busca resgatar o contato com nossos instintos básicos, que corresponderiam a
nossas necessidades. É preciso lembrar que, ao contrário de muitas fantasias, o
instinto é auto-regulável, ou seja, tem por fundamento a preservação do
indivíduo e da espécie. É um comportamento em feedback com o meio; portanto,
não é destrutivo. A etologia humana tem demonstrado o quanto nossos
comportamentos são herdados.
A Biodanza
propõe o resgate da nossa capacidade de feedback com o meio. A integração
afetivo-motora é o movimento que parte de uma motivação afetiva em ressonância
com o meio, que regenera o vínculo com a vida. Leva a uma constante dança que
não é apenas um movimento em um momento preciso; é vida, pois o que vive dança
em continuidade.
VIVÊNCIA
É possível que a percepção da realidade tenha mudado com a invenção do relógio?
Este instrumento, tão popular em nossos dias, entrou para a história, como
mecanismo, há cerca de quinhentos anos. Simboliza uma etapa da história da
humanidade, o mecanicismo, quando a ciência concentra-se na mensuração.
Imaginemos o
espaço como uma coordenada vertical e o tempo como uma coordenada horizontal.
Quando estabelecemos um ponto de encontro, uma reunião com amigos, por exemplo,
sempre haverá essas duas coordenadas: tempo e espaço. Seria altamente
improvável que esses amigos conseguissem se encontrar sem essas coordenadas.
Neste sentido, mensurar mecanicamente o tempo, padronizá-lo e popularizá-lo foi
um grande progresso. Assim, pouco a pouco, toda a estrutura social começa a se
organizar de acordo com os ponteiros do relógio. Porém, essa organização foi se
tornado tão rígida que, ao invés do relógio permanecer, como originalmente, a
serviço da humanidade; as pessoas é que acabam ficando a serviço dele. Passamos
a viver em uma espécie de prisão virtual em que nosso organismo deve se adaptar
aos tempos cronometrados, mesmo que estes representem uma violência para ele.
Bebês rigorosamente alimentados de três em três horas; crianças sentadas em
fileiras durante ininterruptas horas; adultos enfrentando diariamente o
trabalho repetitivo de uma linha de montagem. O relógio marca o início de um
afastamento dos tempos orgânicos, regulados pela natureza e seus ciclos. Acostumados
a viver em uma sociedade impositiva, somos incapazes de mudar a realidade. A
tecnologia, que originalmente se desenvolve com a promessa de libertar homens e
mulheres de infinitas horas de esforço, proporcionando-lhes tempo para
desfrutar da vida e das artes; na realidade, acaba por servir a um sistema
alienante gerador de neurose e impotência.
Pensando na
evolução da vida, verificamos que os mamíferos tem um sistema nervoso muito
complexo; somos capazes de desenvolver aptidões sociais como linguagem,
comunicação, memória, organização grupal. Estas funções concentram-se em uma
área do cérebro chamada de neocórtex; responsável também por compor operações
complexas, individuais e grupais, que se traduzem por ações concretas no meio.
Já as funções de auto-regulação orgânica - percepção de sensações de fome e
sede, frio ou calor, perigo ou prazer - pertencem a uma área mais antiga do
cérebro chamada de sistema límbico-hipotalâmico, a sede das emoções. O córtex e
o sistema límbico funcionam de forma integrada; a percepção de uma necessidade
conduz a uma ação estratégica que busca no meio a sua satisfação.
O córtex, além
de facilitar a operacionalização de soluções inteligentes, tem uma função
frenadora igualmente importante. Esta função refere-se principalmente a
condutas sociais que levam o individuo a avaliar qual a melhor forma e momento
para se colocar frente aos demais membros de sua comunidade. Determinadas
circunstâncias podem não ser adequadas para buscar sexo, alimento, espaço;
sendo mais inteligente esperar. Avaliada estrategicamente, esta modulação gera
a capacidade de postergar, de esperar o momento adequado de agir; contudo, não
se deve adiar a ação ao infinito, o que pode causar uma série de complicações
orgânicas.
No caso do ser
humano, essa função natural sofreu profundas implicações com o processo de
civilização. Desse modo, a função frenadora do córtex acabou servindo para
ajustar o indivíduo a uma realidade externa impositiva que, na maioria das
vezes, exercia um poder coercivo sobre ele; baseado na punição e sua
conseqüente emoção, o medo. As naturais relações hierárquicas dentro dos grupos
vão se transformando em relações de poder e imposição; perpassadas por
propriedade privada, guerra e trabalho escravo. A civilização, ao exacerbar a
função frenadora do córtex, acaba gerando uma série de doenças relacionadas à
postergação e repressão das necessidades básicas. O desrespeito aos ciclos
fisiológicos traz alterações orgânicas, perceptuais e emocionais como
conseqüência.
Muitas vezes,
ao invés de se criar uma estratégia direta para conseguir comida e saciar a
fome, busca-se postergar a satisfação desta. Neste caso, a repetida falta de
ação concreta pode produzir, em médio prazo, sintomas orgânicos como gastrite e
dores de cabeça; e emocionais como angústia, medo, sensação de impotência e
baixa auto-estima. Postergar e reprimir são conseqüências de uma vida determinada
neuroticamente pelos ponteiros do relógio.
A vivência em
Biodanza é proposta no sentido de se retornar à função estratégica e criativa
do córtex, buscando sua integração ao sistema límbico-hipotalâmico. O momento
da vivência é de ruptura com o tempo cronológico, quando a realidade passa a
ser percebida em sua dimensão atemporal. Durante a vivência há uma alteração da
percepção. No tempo cronológico, um abraço dura um minuto; no tempo vivencial é
eterno, sem tempo, capaz de adquirir um significado especial na existência de
quem o vive. Na atemporalidade da vivência, nenhuma emoção permanece; todas são
vividas intensamente no aqui-agora. O retorno ao tempo cronológico, após a
vivência, pode ser o momento de integrar a experiência vivida ao cotidiano; de
buscar a concretização do que realmente tem valor, reconhecendo as reais
necessidades e resgatando a potência frente à vida. A vivência pode ser
entendida como base para processos educacionais voltados à vida, ao invés de
direcionados à produção e consumo. Neste âmbito, a cognição se desenvolve em
uma relação de prazer e amorosidade com o mundo.
TRANSE
Sob a base perceptual da vivência está o transe, que pode ser definido como um
estado e uma passagem. Nossa cultura teme os estados de transe; associando-os ao
misticismo, à perda de controle e à loucura. Existe a crença de que pessoas
comuns e adaptadas ao sistema não devem acessar a experiência de transe. Na
realidade, o fato é que o transe é uma necessidade que têm bases fisiológicas.
Todos os dias, ao dormirmos, entramos em estado de transe, que é a passagem de
um estado perceptual a outro. Esta alternância está ligada aos ciclos naturais,
a nossa natureza rítmica e cíclica. Assim, o transe é um processo natural de
contato com nossos ritmos orgânicos.
A Biodanza
entende o transe como a passagem de um estado de consciência de si, enquanto
singularidade; para outro estado de consciência de si na fusão da totalidade,
enquanto parte de um todo maior (família, grupo, ecossistema, planeta).
Aprofundar os estados de transe significa agir diretamente sobre o equilíbrio
homeostático, gerando momentos de estabilidade e instabilidade que levam ao
desenvolvimento e a auto-regulação orgânica. Os estados de transe também
promovem renovação celular e estimulam a ação no mundo.
Em realidade, o
ser humano necessita e procura por estados de transe; quando a manifestação
destes é reprimida no ambiente cultural, mecanismos sociais criam válvulas de
escape adequadas à manutenção de certa ordem. Atualmente o transe vem sendo
praticado em várias religiões; induzido por substâncias alucinógenas;
vivenciado em eventos coletivos socialmente aceitos - partidas de futebol,
shows musicais e festas como o carnaval.
O problema da
restrição cultural a certos tipos de manifestação de transe é a possibilidade
de se reforçar ou gerar dissociações individuais ou coletivas. Um transe
religioso de possessão pode causar, após a cerimônia, mal-estar físico e
depressão na pessoa que foi o “cavalo” da entidade. A utilização de
alucinógenos e demais substâncias que alterem o estado de consciência pode
causar dependência e “detonar” núcleos psicóticos ou neuroticamente
compulsivos. Pessoas extremamente contidas e adaptadas às normas sociais podem
manifestar toda sua agressividade durante eventos de grande amplitude. O transe
em si, independentemente da circunstância em que se manifesta, é natural e
necessário a todo ser humano. Porém, dependendo de como é conduzido, pode se
tornar extremamente dissociativo ao refletir o ambiente em que está sendo
induzido.
A proposta do
transe em Biodanza é a integração em vários níveis. Nesse sentido, o estado de
transe não “detona” núcleos psicóticos ou neuróticos; pelo contrário, gera
bem-estar, possibilita a dissolução gradual de couraças musculares (tensões
crônicas) e aumenta a autopercepção ao reforçar a noção da própria identidade.
Caracteriza-se por ser conduzido cuidadosamente, de forma progressiva e nunca
imposto, em ambiente afetivamente acolhedor que facilita a reconexão com os
ritmos fisiológicos e necessidades essenciais. Um transe integrador gera uma
maior consciência corporal e ajuda a construir uma auto-imagem positiva, o que
reforça a auto-estima.
O estado de
transe abre a possibilidade da percepção da própria pessoa enquanto ser
erótico, afetivo e transcendente. Oferece a oportunidade de regredir a estados
de menor vigilância em relação à repressão que temos introjetada; quando é
possível se propor vivências docemente erótico-afetivas que oportunizem a
descoberta do nosso potencial de amor e prazer. Aspectos como esses são pouco
valorizados em nossa cultura porque não estão diretamente ligados à produção e
ao cumprimento de metas e objetivos. Entretanto, acreditamos que ao buscarmos
nossa realização no estabelecimento de relações afetivas com os demais e na satisfação
com o que fazemos; estaremos mais saudáveis e concretizaremos nossos objetivos
e metas com outra qualidade, a do ser.
CARÍCIA
Embora a carícia seja uma das formas de comunicação mais bloqueadas em nossa
cultura; nos últimos anos o toque vem sendo revalorizado por muitas terapias e
técnicas terapêuticas que nos falam dos efeitos benéficos do ato de tocar e da
importância do tocar e ser tocado.
Em Biodanza há
uma profunda diferença entre carícia e toque. Nem todo toque é carícia; esta se
diferencia por ser um toque direcionado e intencional, um toque com
comprometimento afetivo-sensual que favorece a empatia. A carícia acontece
quando toda a atenção está voltada para a pessoa acariciada e existe uma
mobilização do centro afetivo de quem dá e recebe. Junto ao componente afetivo
há uma eroticidade que pode ser mais, ou menos, pronunciada; podemos encontrar
carícias fortemente sensuais com um componente afetivo em segundo plano, ou
vice-versa. Em toda carícia afetiva haverá nuances eróticas que dizem respeito
ao simples prazer e satisfação que o ato em si provoca.
A carícia é uma
ação extremamente integrada; envolve integração afetivo-motora e
afetivo-erótica, além da capacidade de entrar em relação de feedback com o
outro. Por implicar capacidade de entrar em interação e percepção do outro e de
si mesmo, não existe carícia imposta.
As mãos são a
parte do nosso corpo que comumente se envolve diretamente no ato de acariciar.
De fato, a mão tem um formato anatômico adaptado que se molda à forma da pessoa
acariciada; possibilitando a expressão de vários sentimentos e emoções através
da variação da pressão, velocidade e intensidade do toque. Na Biodanza,
buscamos resgatar a expressividade das mãos no ato de acariciar. Com o tempo
descobrimos que as mãos têm muitas formas de comunicar e que um simples toque
pode substituir muitas palavras.
Mas o mundo das
carícias não envolve somente as mãos; onde houver pele, há infinitas
possibilidades de se expressar carícias. Ainda há as formas de carícia que não
envolvem o contato direto com a pele, estas também são de grande intensidade. A
carícia de um olhar pode ser, ao mesmo tempo, muito sutil e forte. Em Biodanza
se aprende que é possível olhar sem julgar, “olhar com o coração”; procurando
perceber a essência de cada pessoa. O olhar diz muitas coisas; nossas emoções
transparecem através do olhar, mesmo que tentemos negá-las pela expressão do
rosto. Quando olhamos “olhos nos olhos” encontramos uma história de vida, força
e fragilidade pulsando juntas. No olhar não existem máscaras; talvez seja por
isso que nossa cultura evite o contato do olhar.
Outra forma de
carícia é a palavra, o diálogo simples e qualificante. Costumamos usar muitas
palavras para expressar conceitos intelectuais, falar de coisas superficiais;
porém, quando o assunto é sentimento, grande parte das pessoas encontra
dificuldade. A carícia verbal é a expressão simples, clara, poética e
encantadora do que se sente.
Rolando Toro
propõe um novo tipo de relação baseada no que chama de estética antropológica,
entendida como a capacidade de ver e comunicar o que há de belo no outro.
Muitas vezes atitudes violentas, descuidadas e superficiais são vistas como
naturais e cômodas; palavras adquirem a densidade emocional da desqualificação.
A estética antropológica está diretamente relacionada à carícia no sentido de
promover a qualificação, o cuidado e a amorosidade na relação com o outro.
Uma pessoa que
recebe carícias regularmente é mais saudável. Do ponto de vista fisiológico
sabemos que a carícia é essencial para o desenvolvimento da bainha de mielina
nos bebês e sua posterior preservação no transcorrer da vida. As carícias
também promovem a formação de redes sinápticas, que não existiriam sem este
estímulo.
AMPLIAÇÃO DA PERCEPÇÃO
E DA CONSCIÊNCIA
O que forma a
consciência é nossa capacidade de perceber o mundo e nós mesmos. Entretanto,
nossa percepção se restringe a uma pequena parte da realidade. Não obstante
nossos sentidos só serem capazes de perceber uma parcela dos estímulos do meio,
formamos barreiras que nos impossibilitam conscientizar tudo que percebemos. O
que chamamos consciência é o âmbito da percepção que nos permite ter uma
pequena noção da nossa existência; tateamos em noções sobre como somos e qual
nosso lugar no mundo. A organização da consciência é simbólica e conceitual.
Hoje vivemos em
um mundo que valoriza e possibilita amplo acesso às informações; porém, ser bem
informado não significa ser consciente. A consciência se forma em um processo
de interação com o mundo, ao protagonizarmos nossa própria história. Uma das
características da consciência é sua capacidade de expansão; durante a
existência podemos ampliar gradualmente nossa percepção e atingir graus cada
vez mais sutis e elaborados. A Biodanza propõe um processo de desenvolvimento
da consciência a partir da interação com a realidade, possibilitando o
envolvimento e conhecimento do mundo que nos rodeia. O excesso de informações a
que somos submetidos diariamente pelos meios de comunicação de massa; ao invés
de nos aproximar da realidade, nos distancia dela ao gerar um sentimento de
impotência diante dos fatos cotidianos.
O conhecimento
implica a ação sobre o fato, o viver algo; portanto, é um estado mais avançado
que a informação, fato em si. A sabedoria vem do acúmulo de
conhecimento, que pode ser enriquecido por informações. O saber é um segundo
passo, vai além do conhecer. A sabedoria vem da maturidade alcançada não
somente com a idade, mas com a intensidade e profundidade da vivência. Todos
nós somos capazes de ser sábios, mas para isso é necessário ir além do
embotamento característico da nossa cultura. Para tanto, primeiro devemos nos
encantar com a vida, brincar e perder o controle da situação. O saber é fruto
da afetiva e apaixonada interação com a realidade.
A Biodanza nos
proporciona uma nova sensibilidade frente à vida. Sabedoria não é poder, imagem
ou ego; é ser, sentir e docemente perceber. A doçura da percepção, a
sensibilidade frente à manifestação da vida e a singularidade de cada momento
único são valores cultivados vivencialmente na Biodanza.
O GRUPO
O grupo é a
matriz do desenvolvimento humano. A socialização compõe um fator fundamental na
formação da nossa maleável relação com o mundo, determinando grande parte de
nossos comportamentos futuros. O ser humano, ao nascer, se encontra muito
imaturo e indefeso, incapaz de gestos mínimos como se alimentar ou se deslocar
sozinho. Tal condição, comum nos mamíferos, se prolonga na espécie humana, por
isso necessitamos ser cuidados por um tempo maior. Esta aparente
vulnerabilidade acabou sendo um fator fundamental para nossa sobrevivência como
espécie que se distingue por sua herdada capacidade de aprender. O tempo
estendido tornou-se essencial para a formação de laços afetivos, base sobre a
qual construímos nosso complexo processo de aprendizado. Desta forma, podemos
dizer que a qualidade da convivência com pais, avôs, familiares, amigos e
comunidade é um fator determinante para o ser humano na medida em que o
compartilhar com os demais constrói nossa humanidade. Atualmente a função de
proteção, tão marcada em pequenas comunidades e grupos primitivos, está
desaparecendo com o crescimento das cidades, que mantém seus habitantes no
anonimato. Em comunidades pequenas é comum todas as pessoas se conhecerem pelo
nome; já nas grandes cidades, muitas vezes, se não na maioria, os próprios
vizinhos de porta são incapazes de se comunicar. As famílias tendem a reduzir
de tamanho e muitas pessoas aprendem a viver sozinhas. Surge o fenômeno da
solidão em massa; apesar de estarmos cercados fisicamente por muitas pessoas,
estamos emocionalmente sozinhos. Como conseqüência, nossa capacidade de
interação se restringe ao que é necessário ou utilitário e nossas relações se
tornam cada vez mais superficiais, permeadas principalmente pelo medo e pela
desconfiança. Desta forma, aos poucos perdemos a consciência de nós mesmos.
O grupo é um
elemento fundamental na estruturação da identidade, o reconhecimento dos demais
é a base para o próprio reconhecimento. A qualidade da convivência em grupo
influencia a saúde mental e somática de cada indivíduo. Em Biodanza, o grupo é
matriz de renascimento. Nossa proposta é formar grupos que se reúnam
periodicamente com a intenção de crescer e desfrutar a vida juntos, reforçando
os laços afetivos através da valorização da presença de cada participante. Em
uma cultura de solidão, como a que vivemos atualmente; a simplicidade desta
proposta têm efeitos profiláticos e curativos muito potentes. A renovação
provocada pela convivência afetiva dentro de um grupo pode ser comparada a um
renascimento.
CONCLUSÃO
O sistema Biodanza está construído sobre uma base teórica em que aspectos
aparentemente estanques interagem de forma coerente, formando um único sistema
de alta eficácia operacional. Os sete aspectos aqui tratados estão em simultânea
interação durante cada aula de Biodanza; juntos eles formam o poder de
transmutação da própria Biodanza.
Considero a
Biodanza um sistema de altíssima importância dentro da busca por uma sociedade
mais humana e igualitária; ajudando, de forma estruturada, as pessoas a saírem
de seu isolamento e superarem suas dissociações. O mundo necessita de
metodologias que tragam resultados eficazes para o resgate da saúde mental do
ser humano, gerando uma sociedade voltada para o amor e cuidado pela vida. A Biodanza
é um sistema capaz de gerar esses resultados.
BIBLIOGRAFIA
1. Anotações feitas durante palestra do
professor Rolando Toro no IX encontro da regional sul de biodanza no Chile em
2004.
2. Livro de Rolando
3. Livro de Sanclair
4. Livro de Cezar – vivencia
5. Apostilas da formação
6. ROLINK, Suely & GUATTARI, Félix
Micropolítica: cartografias do desejo Petrópolis: Vozes, 1986
7. RAGO. L. M. & MOREIRA, E.F.P. O que é
taylorismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.
8. Monografia Carmem
9. Monografia Lílian
10. Monografia Ângela e Jorge
11. Chauí, Marilena – O que é ideologia – ed
brasiliense
Fonte: www.pensamentobiocentrico.com.br
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